Autoridade? Imaturidade…

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Recebi esse texto no meu e-mail e é o desabafo de alguém que vive na estrutura militar e apresenta as suas mazelas. O anonimato será preservado para evitar perseguição, a pedido do (a) autor (a)

Hierarquia, pressão e autoritarismo

Hierarquia, pressão e autoritarismo

Porque sim. Por que eu quero. Por que eu mando. Por que eu sou superior e você é subordinado. Constantemente me pergunto com que frequência essas e outras geniais justificativas são dadas e ouvidas em quartéis mundo afora. Particularmente, em meus incontáveis poucos anos de serviço militar, posso dizer, seguramente, que perdi a conta de quantas vezes ouvi tais frases quando para o cumprimento de determinada ordem.

Argumentos incrivelmente sábios como estes me levam a refletir sobre alguns dos pilares fundamentais da doutrina militar, em especial a hierarquia e a disciplina. De acordo com esses pilares, a sociabilidade lúdica entre superiores e subordinados é rigorosamente indesejável e cabe aos subalternos a obediência hierárquica, de maneira pronta e eficiente, às ordens da autoridade superiora competente.

De forma a digerir e compreender toda a eloquência gramatical citada, desmembrarei a parte que mais me parece paradoxal e singular na questão. Autoridade superiora competente – Autoridade competente – Autoridade.

A palavra autoridade deriva do latim auctoritas, que vem por sua vez vem de auctor, derivado de augere, que significa fazer crescer. Assim, a pessoa incumbida em uma posição de autoridade deve entender que seu principal papel é fazer seus liderados crescerem, se desenvolverem e descobrirem sua total potencialidade. Daí vem sua autoridade.

Tendo em vista tal análise, compreendo a autoridade de duas maneiras. A autoridade inata e a autoridade adquirida. A autoridade inata é aquela que existe no líder devido ao caráter da sua personalidade, seja ele por um acentuado carisma, seja ele por um dom individual. Uma pessoa provida de autoridade inata pode ser exemplificada pelo líder carismático, o artista brilhante ou o cientista visionário, ou seja, sua autoridade é determinada por sua própria natureza.

A autoridade adquirida, por sua vez, pode ser dividida em dois tipos, a autoridade diligente e a autoridade delegada. A autoridade diligente é aquela adquirida através do esforço individual, através do estudo e da vivência. Podemos exemplificar com o enfermeiro e o médico que dedicam anos de estudo para dar o melhor tratamento aos doentes, o agricultor que com anos de experiência conhece as melhores épocas de plantio e as pessoas de idades mais avançadas que passaram por inúmeras situações ao longo de suas vidas e adquiriram conhecimentos e experiências que são novas àquelas de menor idade.

Já a autoridade delegada é aquela na qual um indivíduo adquire sua autoridade através de um processo previsto na legislação, para tal podemos exemplificar através do político que é eleito democraticamente, o fiscal responsável pela regulamentação de determinada atividade, o militar em uma posição hierárquica superiora, dentre outros.

Claramente os tipos de autoridade não ocorrem, necessariamente, de maneira única em uma pessoa. Por exemplo, o médico, já provido de sua autoridade diligente, ao ser promovido a diretor de um hospital, adquire ainda um novo tipo de autoridade delegada que lhe coloca em uma esfera mais ampla no que diz respeito à liderança frente àquela instituição de saúde.

Pensando de forma lógica e racional, a autoridade delegada, portanto, deveria vir decorrente das autoridades inata e/ou diligente de determinada pessoa. Assim sendo, nota-se que, quanto mais tipos de autoridade um líder adquire, maior será a sua capacidade de fazer com que seus liderados cresçam de maneira ordenada e harmônica. Este é o grande desafio, e onde está o verdadeiro reconhecimento de uma grande autoridade.

Haja vista esta discussão, retornemos à caserna. Em um sistema militar tradicional, sob a ótica da não sociabilidade lúdica, as autoridades inata e diligente são irrelevantes para a aquisição de uma autoridade delegada e, portanto, irrelevantes para a imposição arbitrária de uma ordem de um superior hierárquico ao seu subordinado. Evidente e não surpreendentemente, conseguimos perceber que o crescimento ordenado e harmônico dos liderados será comprometido de acordo com a atitude que o superior hierárquico, i.e. autoridade, deseja tomar.

Um superior provido de carisma (autoridade inata), de conhecimento (autoridade diligente) e de posição hierárquica (autoridade delegada) certamente terá melhores condições para guiar seus subordinados, tanto no cumprimento do dever quanto em outras questões pertinentes a um convívio justo e harmonioso. Um superior nessa condição é capaz de quebrar a barreira da não sociabilidade lúdica e de enxergar seu subordinado como um ser humano provido de capacidades e anseios particulares a sua pessoa, extraindo dele seu melhor e sabendo ser tolerante quando necessário. O subordinado, por sua vez, reconhece o superior não apenas pela ótica, também, da não sociabilidade lúdica, ou seja, não apenas pela sua posição hierárquica, mas pelo seu carisma e conhecimento, o que gera um senso de respeito, comprometimento e cumplicidade elevado entre as duas pessoas.

Por outro lado, um superior hierárquico que carece de autoridade inata e/ou diligente, torna-se prisioneiro da autoridade delegada e, consequentemente, observa suas ações apenas através da ótica da não sociabilidade lúdica. O gerenciamento de seus subordinados estará seriamente comprometido e sua autoridade posta em questão, não apenas pelos seus subordinados, mas por si mesmo. Ao duvidar de sua própria capacidade, um superior escravo dessa condição consegue impor sua autoridade delegada apenas através da autoafirmação. E através dessa atitude ele demonstra que (1) ele precisa se mostrar melhor do que os outros, quando na realidade é possível que ele tenha baixa autoestima devido à falta de autoridade inata/diligente, e/ou (2) ele quer fazer parte de um grupo que também age desta forma e, em função disto, sente que é necessário ter este comportamento para conseguir ser aceito.

Assim sendo, o ato de se autoafirmar faz com que esse tipo de líder deixe de olhar verdadeiramente para dentro de si, local onde se encontram os reais meios de reconhecimento e o qual diminui a necessidade de se buscar o retorno externo, e fecha-se a necessidade íntima de impor-se à aceitação do meio. Precisa mostrar-se sempre em destaque para obter constante aprovação dos que os cercam. Com o passar do tempo, se reduz tanto a sua baixa estima que não enxerga mais os que estão ao seu redor como pessoas merecedoras de respeito e consideração, ofendendo e maltratando aqueles a quem se refere e impondo a sua vontade de maneira arbitrária através da sua única alternativa, a autoridade delegada.

Este ato de se autoafirmar através da autoridade delegada mostra o verdadeiro (des)preparo de um líder frente aos seus subordinados. Neste caso sua autoridade não se enquadra mais na esfera da própria etimologia da palavra, ou seja, não significa “fazer crescer”. Sua autoridade transforma-se e mescla-se à esfera etimológica de maturus, particípio passado de maturare que significa amadurecer, estar pronto para a colheita, contudo, acrescido do prefixo in, não.

Líderes nessa condição demonstram que sua autoridade é, na verdade, pura e simples imaturidade. Imaturidade pela necessidade de se autoafirmar. Imaturidade por impor-se como autoridade competente quando dentro de si, eles mesmos duvidam da própria competência. E principalmente, imaturidade por não perceberem que uma autoridade inata pode ser trabalhada e que uma autoridade diligente pode ser adquirida.

Neste sentido, uma autoridade delegada imatura acredita estar absolutamente certa sobre qualquer coisa para com seu subordinado e absolutamente errada sobre qualquer coisa para com seu superior, por mais que evidências contrárias digam que não. Ela não adquire nenhum novo conhecimento e permanece em um estado estático à realidade circundante, fechando-se cada vez mais para uma visão afunilada onde a parede da não sociabilidade lúdica ao seu redor é tão rígida e engessada, pois é a única capaz de sustentar sua imaturidade perante os outros, que o mundo a sua volta se torna supérfluo e até mesmo incoerente com suas ações.

Infelizmente, autoridades nessa situação não são exceções quartéis afora, ainda mais quando jovens em posições de liderança. Se é orgulho ferido, ego inflado ou simplesmente imaturidade, na impossibilidade de escolher as três eu prefiro acreditar na última que pode ser mais facilmente trabalhada. São essas atitudes que, não supreendentemente, fazem o sistema militar, pelo menos nas polícias militares, iniciar seu processo de colapso. Por esse motivo, é evidente que movimentos em prol da desmilitarização e da extinção das policias militares ocorreriam, mesmo sem o estopim da sociedade, visto que o sistema está deturpado e falido dentro dos próprios quartéis.

Felizmente, existe uma luz no fim do túnel e ela vem através do bom senso, da humildade, da compreensão, da tolerância, da justiça e de inúmeros outros aspectos relacionados ao convívio harmonioso entre superiores e subordinados. Um papel pode nos dizer sobre nossa posição, mas jamais nos dirá sobre nosso caráter. Não nos esqueçamos de que não somos melhores ou piores, mas sim diferentes uns dos outros. Diferentes nas capacidades, diferentes no conhecimento, diferentes nas responsabilidades, diferentes nas posições, e é a forma como atuamos frente a essas diferenças que forma nossa verdadeira autoridade.

No jargão militar e em uma visão realista de mundo, um subordinado que pondera acrescenta muito mais ao seu trabalho e à sua instituição, o superior deveria, portanto, fazer o mesmo. E, convenhamos, ainda bem que pelo menos aquele pondera, isso faz parte da natureza do Homo sapiens (do latim “homem sábio”), afinal ponderar deriva do latim ponderare que significa avaliar, pensar sobre… mas é melhor parar por aqui, isso é assunto pra outra discussão.

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